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O Monóculo

Os melhores filmes de 2016

30/12/2016 - Atualizado em: 30/12/2016, 19:21 Publicado por: Rhuan Piauilino

Os tortuosos 366 dias de 2016 ainda irão perdurar em nossas memórias por muito tempo. Um ano tão marcante (para o bem e para o mal), não poderia deixar de trazer grandes obras de arte, especialmente no audiovisual. Coisas geniais como O.J. – Made in America (minissérie transformada em longa-metragem após a exibição), The Night Of e a primeira temporada de Westworld, acalentaram as perdas irremediáveis deste ano. Mas, aqui, me restringirei ao Cinema. Então aí vai minha lista daqueles filmes que mais me impressionaram esse ano, destacando que utilizei como critério, apenas filmes lançados comercialmente no Brasil em 2016 (seja em Cinemas, TVs, ou Sistemas de Streaming Online).

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1º – OS OITO ODIADOS

Um filme que demonstra toda a ambição narrativa do genial Quentin Tarantino, ao transformar uma reunião aparentemente casual de pessoas de índole duvidosa em um microcosmos da sociedade norte-americana. Cada personagem representa uma característica ou um agente formador daquilo que chamamos de Estados Unidos da América. E é curioso notar o quanto todos eles são criaturas desprezíveis e capazes de destruir-se mutuamente com muita facilidade. Os diálogos tarantinescos estão mais afiados do que nunca e nos conduzem a um final digno de aplausos. Porque há muito mais em Tarantino do que sangue jorrando na tela.

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2º- O ABRAÇO DA SERPENTE

Esse excelente exemplar colombiano é um verdadeiro tratado sobre as relações entre o homem branco e os indígenas em meio à exploração da borracha na floresta Amazônica no início do século XX. Um filme sobre crenças e descobertas que ressalta a espiritualidade e os labirintos tortuosos (e devastadores) da sobreposição cultural à qual foram submetidos os povos silvícolas que ali habitavam. Sob a égide de uma soberba fotografia em preto e branco, o diretor Ciro Guerra tece uma narrativa que desafia a memória de seu protagonista e do próprio espectador.

 

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3º- AQUARIUS

Kléber Mendonça Filho concebe uma obra de cinema que é puro afeto. Contendo o nome de um prédio como título, esse filme discute a priori a fisicalidade dos sentimentos através de um objeto, de um carro ou mesmo de sua própria casa. A partir disso, Aquarius nos preenche com uma brasilidade indiscutível que começa na bela trilha sonora e termina na espetacular atuação de Sônia Braga. Um filme sobre nós (brasileiros), nossas relações, nossas “verdades”, de como sobrevivemos apesar delas.

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4º- BOI NEON

Uma mulher caminhoneira, um vaqueiro que desenha roupas femininas, uma garotinha apaixonada por cavalos. É através desses personagens que fogem dos estereótipos mais comuns que Gabriel Mascaro nos conduz pela sua narrativa contemplativa recheada de simbolismos sobre a tentativa de “fuga” daqueles homens e mulheres de um universo que não satisfaz seus sonhos e desejos. Uma tentativa (por vezes, inútil) de brilhar no escuro como a tinta neon em um boi de vaquejada.

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5º- ANOMALISA

O gênio de Charlie Kaufman se prova novamente nessa delicada e sensível animação que explora, através do solitário protagonista Michael Stone (David Thewlis), a eterna busca humana por conexões com outras pessoas e por evitar que o cotidiano das relações se torne uma contínua decepção. E é óbvio que Kaufman deixa sua assinatura onírica, o que torna a obra ainda mais angustiante.

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6º – A CHEGADA

Sem dúvida, a grande ficção científica do ano. Utiliza a ideia de uma invasão alienígena para discutir a importância da linguagem como vetor de descobertas pessoais, além de refletir sobre o que nos define como seres humanos. Repleto de sentimento e melancolia, o filme ainda nos faz olhar para o tempo como algo que parte muito mais de nós mesmos do que da própria natureza.  Em 2014 coloquei O Homem Duplicado entre os dez melhores filmes do ano. Em 2015, coloquei Sicario. Com A Chegada é a terceira vez seguida que Villeneuve está no meu top 10 pessoal. Acho que estou virando um villeneuvete.

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7º – PAULINA

Um daqueles espécimes cinematográficos que testam a moral do espectador durante toda a projeção. Esse excelente filme argentino levanta discussões importantíssimas a partir de um evento aterrador: o estupro da personagem-título. Com uma atuação forte e difícil de Dolores Fonzi, Paulina traz a visão da mulher depois de ser violentada e como suas decisões após o crime se tornam incompreensíveis para aqueles que o cercam, principalmente quando a compaixão se torna uma opção.

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8º – O VALOR DE UM HOMEM

Um retrato intimista das consequências práticas da crise econômica na Europa. Ao contrário de outros cineastas, o francês Stéphane Brizé aposta na simplicidade e no minimalismo para desenvolver um personagem central que tenta manter sua dignidade em meio à sangria de empregos na França. Vincent Lindon evoca uma nobreza irretocável em uma atuação detalhista, cuja grandiosidade reside nas sutilezas.

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9º- CERTO AGORA ERRADO ANTES

Seria um pecado deixar o cinema asiático de fora de uma lista de melhores filmes do ano. Especialmente, quando um cineasta tão marcante quanto Hong Sang-soo concebe um exercício de linguagem tão fascinante como este. Como o próprio título já aponta, Sang-soo explora a possibilidade de modificarmos uma atitude errada que tomamos anteriormente. Um exercício que em nosso cotidiano é comum, mas que nas mãos do cineasta sul-coreano se transforma em uma reflexão sobre o arrependimento e uma metáfora sobre o “fazer cinema”.

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10º- 13ª EMENDA

Esse documentário original da Netflix, dirigido por Ava Duvernay, discute o grave problema do encarceramento em massa nos EUA, sob a ótica da discriminação racial. Para tal, Duvernay explana um painel histórico/social sobre a imagem inferiorizada do “homem afro-americano” propagada por filmes, jornais, revistas e receptada pelo Estado através de seus governantes. Sem abrir concessões (nem para republicanos, nem para democratas), o filme demonstra que existe uma verdadeira “emenda invisível” na Constituição Americana que legitima a matança e o aprisionamento de negros nos EUA. Uma ferida que permanece exposta nesse país.

 

MENÇÕES HONROSAS

 

417560-jpg-c_400_200_x-f_jpg-q_x-xxyxxO NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

Através da reconstituição de uma rebelião de escravos ocorrida em meados do séc. XIX, o diretor Nate Parker revela com violência a insanidade dos fundamentos da escravidão nos EUA (ou em qualquer outro lugar).

 

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ELLE

Paul Verhoeven está de volta, e, em parceria com a genial Isabelle Huppert, constrói um thriller imoral cheio de nuances psicológicas.

 

 

 

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CAPITÃO FANTÁSTICO

Um encanto de filme, recheado de personagens exóticos e divertidos. Viggo Mortensen está excelente.

 

 

 

 

 

 

 

A fé no feminino

26/12/2016 - Atualizado em: 26/12/2016, 18:59 Publicado por: Rhuan Piauilino

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Logo no início do documentário Marias, vemos uma série de pequenas estátuas pálidas da Virgem Maria que vão ganhando cores e contornos conforme o escultor as manuseia. Tal cena se mostra uma pequena metáfora que sintetiza os 76 minutos de projeção, em que aqueles que entram em contato profundo com a figura de Maria ganham um novo sentido de vida.

Dirigido por Joana Mariani, Marias tem como escopo uma investigação sobre tudo que envolve a devoção à Virgem Maria em diversos países da América Latina, como Brasil, Peru, Nicarágua, Cuba e México. Para isso, a cineasta realizou uma pesquisa que durou 06 anos captando imagens de santuários e grandes peregrinações e manifestações de culto à representação de Nossa Senhora. Além disso, trouxe consigo relatos de pessoas com nome de Maria que tiveram, ao seu modo, uma forte experiência de fé com a mãe de Jesus.

O filme inicia com um tom contemplativo ao evocar imagens que ressaltam a santidade de Maria, especialmente na peregrinação ao santuário de Aparecida, em São Paulo. A fotografia de Anderson Capuano compõe belas imagens que traduzem o sacro que envolve o culto a Maria, como aquela em que contrasta o ardente fogo das velas acesas em uma Igreja com a luz do Sol adentrando o espaço através de pequenos buracos nas janelas.

Todavia, aos poucos, o longa vai adotando uma abordagem mais antropológica sobre a fé das mulheres em Maria, desvencilhando-se do conceito meramente religioso. Ao trazer o relato da restauradora responsável por reconstruir a imagem de Nossa Senhora Aparecida que estava em “cacos” após um incidente, percebe-se que o confronto entre fé e razão dará lugar a uma análise mais meticulosa sobre a figura feminina existente em Nossa Senhora.

hqdefaultA partir daí, a diretora evita os sentimentalismos baratos e lança um olhar sobre as diversas facetas que representam a Virgem Maria (mãe, mulher, esposa, matriarca, etc.), e o quanto cada característica é representativa para as mulheres de cada região. É curioso notar, por exemplo, como as mulheres mexicanas fazem questão de apontar que sua padroeira, Nossa Senhora de Guadalupe, é uma santa gestante pronta para dar à luz, o que simboliza os milagres que estariam por vir através de seu ventre.

O longa vai além ao demonstrar que a crença em Maria se tornou um símbolo que une as culturas da América Latina e que, em meio aos seus sincretismos e nacionalidades, encontra um elemento de identidade unificador de povos tão miscigenados, algo que a montagem faz questão de destacar ao saltar de forma fluida entre as manifestações religiosas de cada país. Tal crença transcende os limites religiosos, o que se constata quando é mencionado que até aqueles que não acreditam em Deus cultuam a figura de Nossa Senhora da Caridade do Cobre, em Cuba.

Mas talvez o relato mais condizente com a obra seja o do músico cubano José Maria, que, convicto de seu ateísmo, teve uma experiência de fé com Nossa Senhora e transformou-a em arte ao compor um hino em homenagem à Virgem Maria, algo que não existia em seu país até então.

Essa representação de Nossa Senhora em forma de arte parece ser justamente a proposta da diretora Joana Mariani, que homenageia a cultuada Virgem Maria com um trabalho sobre o feminino existente por trás da figura santa e todos os valores de maternidade, acolhimento, consolo, cura e força associados a ela.

Valores estes que se refletem nas mulheres que lutam a cada dia para ter mais espaço e voz em uma sociedade machista que subjuga a força do feminino. E, por mais diferentes que sejam as formas com que se busca esse reconhecimento, de uma forma ou de outra, a imagem de Maria se torna a fonte inesgotável de inspiração e justiça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A maturidade em Star Wars

18/12/2016 - Atualizado em: 19/12/2016, 09:05 Publicado por: Rhuan Piauilino
Rogue One - Uma História Star Wars traz maturidade à Saga

Rogue One – Uma História Star Wars traz maturidade à Saga

No ano passado, tivemos o retorno de uma das maiores franquias da história do Cinema. O Despertar da Força reacendeu, no coração daquele fã incansável da saga Star Wars, o fervor de saborear o seu universo preferido na tela grande, e de quebra fez acender, naqueles que nunca foram muito “chegados” na série, a vontade de também beber um pouco dessa magia que atravessa galáxias.

O Despertar da Força marca o retorno de Star Wars ao cinema.

O Despertar da Força marca o retorno de Star Wars ao cinema.

J.J.Abrams foi o responsável por trazer Star Wars de volta, sendo uma escolha natural, já que o diretor havia sido o responsável pelo retorno da franquia Star Trek, com muito sucesso, diga-se de passagem. E a verdade é que Abrams foi muito esperto ao conceber O Despertar da Força da forma como o fez.

Se pensarmos bem, ele arriscou muito pouco. Trouxe de volta os principais personagens clássicos com os atores originais, utilizou a mesma estrutura narrativa do ótimo episódio IV, fez um caminhão de referências ao universo expandido da série e agradou quase todo mundo (e digo “quase”, porque sempre tem o fanzoide chatão que morre se o filme não for pura fan service).

E não acho que isso foi demérito do diretor. Ao contrário, a função dele era reativar a franquia clássica e dar a ela um frescor jovial e moderno, e o fez com muita competência, inclusive na inserção dos novos personagens. Rey, Finn, Poe, e BB-8 caíram nas graças do público, e até mesmo o controverso Kylo Ren foi motivo de debates intensos, principalmente devido a sua natureza.

De certo é que a tragédia da família Skywalker sempre nos atrai e continuará atraindo. Mas o universo Star Wars é gigantesco e pouco explorado no cinema. É nesse ponto que o novo filme da série, Rogue One – Uma História Star Wars, se torna um pequeno deleite.

Estreando nas salas de cinema de todo o país, o longa traz algo novo em Star Wars. A história situa-se cronologicamente entre os acontecimentos do Episódio III – A Vingança dos Sith e do Episódio IV – Uma Nova Esperança, e centra-se na protagonista Jyn (Felicity Jones), uma jovem que reluta em optar por um dos lados da guerra “Império X Aliança Rebelde”, mas é cooptada por esta última para ajudar em uma missão que envolve seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen, sempre competente), que estaria sendo forçado a construir uma arma de destruição em massa para as forças imperiais.

Galen teria enviado uma mensagem para o guerrilheiro Saw Guerrera (Forest Whitaker) através do piloto desertor Bhodi Hook (Riz Ahmed), sobre a construção dessa grande arma, e Jyn seria a forma pela qual a Aliança teria acesso à mensagem. Juntamente com o militar rebelde Cassian (Diego Luna), os guerreiros Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Wen Jiang), e o droide reprogamado K-2SO (Alan Tudyk), Jyn seguirá em busca dessa mensagem, mesmo que resista, inicialmente.

Assim como em O Despertar da Força, Rogue One possui uma mulher como protagonista. Mas Rey e Jyn possuem diferenças fundamentais para a construção narrativa de ambos os filmes. Enquanto a primeira sonha em viver as lendas das guerras e dos Jedis que tanto ouvira desde criança, a segunda reluta em corresponder a essa realidade e assumir qualquer luta por qualquer que seja a causa. Para Jyn, especialmente, isso não só funciona para o desenvolvimento do seu arco dramático, mas também é um comentário de como a sua omissão (e a de vários outros) permite que o Império imponha com mais facilidade sua dominação em busca de “paz e segurança” para a galáxia.

Nesse sentido, Rogue One demonstra ser o filme mais maduro da Saga Star Wars no Cinema, pois através de sutilezas demonstra não só o quanto o Império era repressivo e destrutivo para a galáxia (destruindo planetas inteiros com um simples apertar de um botão), mas também ressalta o quanto o extremismo da Rebelião fez com que esta adotasse métodos que a tornaram mais semelhante a seus inimigos do que ela gostaria. E isso pode ser constatado na figura paranoica do guerrilheiro Saw Gerrera, que usa um aparelho para respiração que nos lembra Darth Vader, o maior algoz dos rebeldes. Uma semelhança sutil, mas repleta de simbolismo.maxresdefault

A fita também demonstra ousadia ao trazer constantemente, através de seus personagens, o confronto entre o pragmatismo da guerra e o misticismo da Força. Naquele universo sombrio de uma batalha desigual (a fotografia escura de Greig Fraser pontua isso de forma certeira), o conceito da Força parece ser algo mais distante e a incredulidade dos rebeldes soa mais natural do que deveria. Até por isso, a figura do monge Chirrut, que pensa a Força como um mantra, traz, ao mesmo tempo, a contraposição e o equilíbrio necessários em meio à dureza daquela guerra.

O diretor Gareth Edwards mostra uma competência surpreendente (ele havia dirigido a problemática nova versão de Godzilla), principalmente nas cenas de ação, criando batalhas campais épicas diferenciando visualmente os oponentes, e fazendo um bom uso dos efeitos digitais, especialmente na (re)construção de personagens que fisicamente não poderiam mais estar ali.

Em suma, Rogue One – Uma História Star Wars consegue a proeza de, mesmo possuindo todo o estilo de um filme da Saga, diferenciar-se por explorar a racionalidade da guerra entre Império e Aliança Rebelde, fazendo comentários políticos relevantes sem jamais deixar de satisfazer os fãs com referências de todo o universo Star Wars ou mesmo entreter com belas cenas de ação.

Porque Star Wars não gira apenas em torno da família Skywalker, e os todos os heróis desse universo merecem mais do que uma simples nota de rodapé.

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