27/03/2017 (86) 98119-5253

O Monóculo

Previsões para o Oscar 2017 – Parte II (Categorias Principais)

24/02/2017 - Atualizado em: 24/02/2017, 12:23 Publicado por: Rhuan Piauilino

Como prometido na parte I das minhas previsões ao Oscar 2017, aí estão meus palpites nas oito principais categorias:

Moonlight é favorito ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Esta categoria traz uma pequena curiosidade. “Moonlight” não é um filme baseado em nenhuma obra literária, nem  é uma sequência de outro filme. Mesmo assim, a Academia o considerou para a categoria de roteiro adaptado, contrariando premiações como o WGA (Sindicato dos Roteiristas) e o Critics Choice Awards que o colocaram em roteiro original. Isso aconteceu porque o filme de Barry Jenkins  é uma adaptação da peça de teatro Moonlight Black Boys Look Blue, do dramaturgo Tarell Alvin McCraney. O detalhe é que a peça em questão nunca chegou a estrear. Mas, o texto existe e as regras da Academia são sisudas em relação à “adaptações”. Sendo assim,  “Moonlight”  ficou como roteiro adaptado, o que no final das contas foi ótimo para o filme, pois automaticamente tornou-se o favorito na categoria, já que não teria a concorrência mais forte de “Manchester à Beira-Mar” e “La La Land”. Em tese, o roteiro de “A Chegada” poderia ser uma ameaça, mas o filme demonstrou pouca força na temporada de premiações. Dessa forma, o caminho está pavimentado para a vitória de “Moonlight”.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Confesso que o meu queridinho aqui seria o roteiro de A Qualquer Custo. O competente Taylor Sheridan constrói, através de um argumento simples, uma complexa e instigante metáfora sobre as contradições norte-americanas. Uma pena suas chances serem remotas. Esta categoria está polarizada entre “Manchester à Beira-Mar” e “La La Land”. Teoricamente, os musicais nunca chamaram a atenção por seus textos, mas o roteiro escrito por Damien Chazelle vem sendo elogiado desde que o filme estreou no Festival de Veneza. Já “Manchester a Beira-Mar”, traz a seu favor um roteiro que nos afunda na agonia do protagonista nos conduzindo paulatinamente pelo seu universo destruído. Eu diria que “La La Land” está um pouco a frente nessa corrida, especialmente se o filme começar a levar uma estatueta atrás da outra durante a cerimônia. A disputa está acirrada, mas aposto em uma rara vitória do roteiro de um musical.

Viola Davis é favorita ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Quem já viu o filme “Um Limite Entre Nós” (título brasileiro de Fences), sabe que Viola Davis deveria estar indicada na categoria principal, ao invés da categoria de coadjuvante. A estratégia do estúdio detentor dos direitos do filme era fugir da concorrência pesada na categoria principal, e garantir um Oscar em uma categoria “menos congestionada”. Deu certo, pois não há nenhuma atuação nesta categoria que ao menos possa ameaçar o magnetismo cênico de Davis. Será seu primeiro Oscar, após três indicações.

 

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Lucas Hedges e Dev Patel estão indicados muito mais pelo sucesso dos filmes em que atuam do que por suas respectivas atuações em “Manchester à beira-mar” e “Lion”. Jeff Bridges está ótimo em “A Qualquer Custo”, mas a impressão que fica é a de que já vimos aquela atuação antes. Michael Shannon é um ator fenomenal e teve um 2016 maravilhoso. A sua indicação por “Animais Noturnos”, coroa uma carreira calcada em personagens complexos e de intensidade singular. Meu preferido seria Shannon, mas o grande favorito é Marheshala Ali. O ator venceu o SAG (Sindicato dos Atores) e deve confirmar sua vitória pela bela composição em “Moonlight”.

MELHOR ATRIZ

Em um mundo ideal, Isabelle Huppert levaria esse Oscar com as mãos nas costas por sua atuação visceral em “Elle”. Não há, entre as indicadas, quem sequer aproxime-se no nível de atuação da atriz francesa. Porém, o Oscar é um prêmio midiático, em que a competência artística é um quesito avaliado em menor grau do que deveria. E basta observarmos que a indicação de Meryl Streep só aconteceu por causa do seu discurso inflamado contra Trump na cerimônia do Globo de Ouro, para concluirmos o que de fato importa para a premiação. Dito isso, em algum momento da temporada de premiações, Natalie Portman foi apontada como favorita por sua atuação em Jackie. Mas, a verdade é que a moça não ganhou nada até aqui que a creditasse como uma “frontrunner”. O contrário podemos dizer sobre Emma Stone  que venceu o SAG (Sindicato de Atores) e o Bafta (Osca Britânico) por sua atuação em “La La Land”. A ruivinha deve confirmar seu favoritismo e levar seu primeiro Oscar no domingo.

Denzel Washington x Casey Affleck: A disputa mais acirrada deste ano.

MELHOR ATOR

Agora sim, temos uma categoria que podemos chamar de acirrada. Viggo Mortensen está ótimo em “Capitão Fantástico”, Andrew Garfield demonstra dedicação em “Até o Último Homem”, Ryan Gosling se esforça em “La La Land”, mas nenhum dos três tem a menor chance. A disputa está praticamente empatada entre Casey Affleck e Denzel Washington. O protagonista de “Manchester à beira-mar” compôs uma personagem duro, de olhar vazio, que parece explodir internamente. Traduzir esses sentimentos em poucos movimentos corporais é uma tarefa árdua e para poucos, e Affleck o faz com extremo talento. De outro lado, temos o veterano Denzel Washington trazendo para o cinema um personagem que o consagrou no teatro com a peça escrita por August Wilson. A intensidade e a entrega de Washington, auxiliado pela força do texto, fazem de sua atuação em “Um Limite Entre Nós” algo memorável. Casey Affleck arrebatou a maioria dos prêmios de atuação na “temporada-ouro”. Porém, Denzel Washington venceu o SAG ( Sindicato dos Atores) que é o principal termômetro para o Oscar nesta categoria. Muitos dizem que o possível Oscar para Affleck começou a ser ameaçado quando ressurgiram acusações de abuso sexual que ele teria cometido em 2010. Polêmicas à parte,qualquer um dos dois pode sair vitorioso, mas vou seguir o Sindicato de Atores e apostarei no terceiro Oscar da carreira de Denzel Washington.

MELHOR DIRETOR

Dentre os indicados, sem dúvidas a direção de Denis Villeneuve em “A Chegada” é a que mais salta aos olhos. Toda a construção fílmica dessa bela ficção científica nos insere em um universo ofegante e cinzento que provoca reflexões múltiplas. Infelizmente, não é a vez do diretor canadense. Não vou dizer que a indicação de Mel Gibson foi uma surpresa, pois o sujeito já demonstrou em várias oportunidades sua competência como cineasta. Mas, após uma década de ostracismo, ‘Até o Último Homem” mostra todo o vigor e a segurança que esse maluco australiano tem com a câmera na mão. Kenneth Lonergan é mais conhecido como roteirista, mas demonstrou em seu pesado “Manchester à beira-mar” que é um cineasta capaz de nos jogar no fundo do poço com sua direção fria e certeira. E, sim, isso é um grande feito. Barry Jenkins com sua direção contemplativa e refinada no belo “Moonlight”  teve seu nome cogitado como um possível candidato a desbancar o favoritismo de Damien Chazelle que conduziu “La La Land” com extrema competência e firmeza. Esta hipótese logo foi descartada quando Chazelle venceu o DGA (Sindicato dos Diretores). Traduzindo: Damien Chazelle será o diretor mais jovem a vencer um Oscar.

La La Land é o grande favorito no Oscar 2017

MELHOR FILME

Na minha humilde opinião, todos os indicados desse ano são bons. Alguns geniais. Mesmo filmes problemáticos como “Lion” e “Estrelas Além do Tempo”, possuem em si uma força narrativa peculiar, além da história inspiradora que buscam contar. “A Qualquer Custo” foi um filme que me surpreendeu pela forma como escolhe abordar seus temas, misturando o clássico e o moderno, alem de trazer questionamentos atuais e relevantes para os EUA da era Trump. “Até o Último Homem” marca o retorno do “perdoado” Mel Gibson, e nos mostra que esse sujeito é talentoso demais para ficar 10 anos sem nos brindar com sua capacidade por trás das câmeras, mesmo que volta e meia ele tenha um dos seus surtos psicóticos e antissemitas. “Um Limite Entre Nós” é um projeto pessoal de Denzel Washington para levar às telonas a intensa e angustiante peça teatral de August Wilson. E se a fidelidade à  teatralidade da obra, por vezes, atrapalha o desenrolar do filme, as atuações de um elenco afinado compensam com sobras. “A Chegada” é um filme que me conquistou instantaneamente. Uma obra de arte de Denis Villeneuve que nos remete a reflexões sobre a humanidade e a uma análise profunda da linguagem como vetor do “eterno retorno”. Para mim é, de longe, o melhor entre os indicados. “Moonlight” é uma obra de estética requintada e que a utiliza organicamente para um exercício de personagem, em certa medida, doloroso sobre um alguém que não se aguenta dentro si. “Manchester à beira-mar” é uma pedrada. Poucos filmes conseguem traduzir imageticamente o sentimento de perda, dor e vazio como este o faz. E conforme mergulhamos na tragédia latente da obra, a sensação de “sem chão” é inevitável. E por fim, temos “La La Land”, o musical que roubou o coração de muitos ao falar de amor e sonhos quando isto parece ser proibido nos dias atuias. Além disso, o filme funciona muito bem enquanto homenagem ao cinema clássico, mesclando a nostalgia com o frescor da novidade. O filme dirigido por Damien Chazelle é o grande favorito para vencer o prêmio principal. A publicidade em cima do filme foi muito bem elaborada, e mesmo que em algum momento pudesse ter sido ameaçado por “Moonlight”, ou mesmo “Estrelas Além do Tempo” (que venceu o SAG de Melhor elenco), logo afastou essa possibilidade ao “arrastar” prêmios importantíssimos como PGA (Sindicatos dos Produtores) e DGA (Sindicato dos Diretores), que são os termômetros mais fortes para o Oscar. Sendo assim, “La La Land”, o “filme-trator do ano”, deve fechar com chave de ouro sua noite de gala levando a Oscar de Melhor Filme.

 

É isso, pessoal. Vamos aguardar o que o humorista  Jimmy Kimmel está preparando para a apresentação do Oscar 2017. Certamente, haverão muitas piadas anti-Trump e sobre a “treta fake” que Kimmel tem com Matt Damon, mas tomara que  ele me surpreenda.

Até a próxima.

Previsões para o Oscar 2017 – Parte I (Categorias Técnicas)

20/02/2017 - Atualizado em: 20/02/2017, 13:46 Publicado por: Rhuan Piauilino

Na próximo domingo (26), ocorrerá a 89ª Cerimônia de Entrega dos Oscars, o prêmio mais famoso do cinema mundial. Particularmente, adoro o Oscar. Claro que, do ponto de vista artístico, é uma premiação bem questionável e a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (organizadora do evento) já cometeu inúmeras atrocidades ao longo da sua história. Mas é divertido acompanhar a temporada de premiações, assistir aos filmes indicados e tentar identificar os possíveis vencedores.

Dessa forma, sempre que tenho oportunidade gosto de brincar de vidente e tentar adivinhar os possíveis vencedores em suas respectivas categorias.Para tanto, dividirei minhas “previsões” em dois textos. Este primeiro será sobre as chamadas “categorias técnicas”(Montagem, Fotografia, Efeitos Visuais, etc), enquanto o segundo será sobre as categorias principais (Filme,Direção, Atuações e Roteiro).

Então, aí vai uma tentativa de antecipar o que pode acontecer no Oscar 2017:

MELHOR ANIMAÇÃO

Nesta edição, a categoria trouxe uma diversidade interessante de filmes com temáticas diferentes e aprofundadas. Poucas  coisas me encantaram tanto esse ano como  “A Tartaruga Vermelha”. Seria o meu favorito. Mas o Oscar deve ir para “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho”, que venceu praticamente todos os prêmios que disputou contra seus pares até aqui.

O.J.: Made In America é o favorito para ganhar o Oscar de Melhor Documentário

MELHOR DOCUMENTÁRIO

É bem claro que a polêmica do #Oscarsowhite do ano passado influenciou fortemente as indicações desta categoria. Dos cinco indicados,quatro debatem frontalmente a questão racial nos EUA. Mas, nada é tão grandioso como “O.J.: Made in America”. Uma obra completa e complexa sobre os mitos e tabus raciais norte-americanos. Não há dúvidas de que é o grande favorito. Ocorre que, nos últimos dias surgiu a noticia de que os membros da Academia não estariam assistindo ao filme, em virtude de suas quase oito horas de duração. Isso poderia beneficiar “A 13ª Emenda”, filme de Ava Duvernay, que seria o “segundo favorito”. Ainda assim, acho improvável que O.J.: Made in America saia de mãos vazias da cerimônia.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Eis uma categoria com uma disputa acirrada. No inicio da temporada o genial representante alemão, “Toni Erdmann”, galopava rumo a um Oscar certo depois de todo o frisson que causou em Cannes. Porém, a ordem executiva de Donald Trump impedindo que cidadãos iranianos e de mais seis países de origem muçulmana entrassem nos EUA, fez o iraniano “O Apartamento” crescer nas bolsas de aposta, já que a Academia utilizaria este prêmio como forma de protesto em relação a esse absurdo. Mas, nas últimas semanas o sueco “Um Homem Chamado Ove” se tornou um favorito, pois seria um filme mais palatável e agridoce, algo que encontou os votantes. Qualquer um dos três pode sair vencedor, mas apesar do “momentum” ser de “Um Home Chamado Ove”, eu aposto no voto político da Academia em “O Apartamento”.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Essa categoria é uma daquelas barbadas que você pode apostar sem ver. A canção “City of Stars” dará um Oscar certo para “La La Land-Cantando Estações”. E é bem provável que aqui já possamos ver uma tendência de vitória avassaladora do filme de Damien Chazelle.

MELHOR FOTOGRAFIA

Estranhamente, a fotografia insossa de ” Lion-Uma Jornada Para Casa”  andou ganhando alguns prêmios, entre eles o do Sindicato de Diretores de Fotografia, um importante termômetro para o Oscar. Isso pode ser um sinal forte para vencer a estatueta, mas a minha aposta é em mais um Oscar para La La Land-Cantando Estações. Comecem a contar, pois serão muitos.

MELHOR FICURINO

O único filme que poderia ameaçar “La La Land-Cantando Estações” nesta categoria seria “Estrelas Além do Tempo”, mas não foi sequer indicado. Sendo assim, a figurinista Mary Zophres deve levar sua primeira estatueta pelo seu trabalho nesse musical.

MELHOR TRILHA SONORA

Sendo “La La Land-Cantando Estações” um musical, há alguma dúvida de sua vitória nesta categoria?! É quase zero de chances para qualquer outro. Mas seria deveras interessante ver a trilha sonora magistral de “Jackie” ser consagrada com um Oscar. Mas, vai dar “La La Land.. “ mesmo.

Disputa acirrada pelo Oscar de Melhor Montagem: A Chegada x La La Land

MELHOR MONTAGEM

Há uma disputa bem polarizada aqui. De um lado, a montagem intimista e reflexiva de “A Chegada”. De outro o frenesi da montagem de “La La Land…”. Os dois filmes foram premiados pelo Eddie Awards (Sindicato dos Montadores) e tem reais chances de saírem vitoriosos. Um apelo para “A Chegada” seria o fato de ser um filme tão elogiado e correr o risco de sair de mãos vazias da cerimônia. Já “La La Land…” , parece ser o “filme-trator” que vai sair com a maleta lotada de estatuetas. Aposto nesta última alternativa.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM E MELHOR MIXAGEM DE SOM

É sempre bom destacar que são categorias diferentes e independentes. Estou unindo as duas em um só tópico porque o raciocínio usado pelos votantes para premiar um filme em ambas as categorias quase sempre é o mesmo. O trabalho de edição e mixagem de som de “Até o Último Homem” é soberbo. O filme de Mel Gibson extrai do som um recurso de impacto narrativo muito  bem elaborado. Contudo, não nos esqueçamos que “La La Land…”, o “filme-trator do ano”, está indicado nas duas categorias, e pode também ficar com essas estatuetas. Mas, ainda aposto em “Até o Último Homem”.

Mogli: O Menino Lobo é favorito na categoria de Melhores Efeitos Visuais

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Nessa categoria “La La Land…” só não tem chance de vencer porque não foi indicado. A Academia gosta de demonstrar afinação com a indústria hollywoodiana e essa nova tendência da Disney em transformar suas animações clássicas em versões “live-action” foi bem recebida pelo público. Assim. “Mogli: O Menino Lobo” deve ser o congratulado da vez. E, convenhamos, os efeitos visuais deste filme têm algo de mágico.

 

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Apesar de adorar o design requintado de “Ave, César”, e a construção métrica do design de “A Chegada”, vamos combinar que o que David Wasco faz em “La La Land…” é algo que beira o épico. Mais uma estatueta para o filme de Chazelle.

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO

Chegamos àquela categoria maravilhosa que indicou o horroroso “Esquadrão Suicida”. E, sim, o filme do David Ayer tem boas chances de ganhar. Até porque o trabalho de maquiagem é uma das poucas coisas boas que se pode retirar desse filme. Mas, acho que a Academia deve optar pelo bom senso de premiar a maquiagem de “Star Trek- Sem Fronteiras”.

 

Por enquanto, vamos ficar por aqui. Na sexta-feira, publico minhas previsões nas categorias de Melhor Roteiro (Original e Adaptado), Melhor Ator e Ator Coadjuvante, Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante, Melhor Diretor e Melhor Filme. Até mais.

As rachaduras no apartamento de Farhadi

30/01/2017 - Atualizado em: 30/01/2017, 12:54 Publicado por: Rhuan Piauilino

 

Asghar Farhadi é um dos cineastas mais fascinantes do cinema contemporâneo. Concebendo obras-primas como À Procura de Elly e A Separação, o iraniano estabeleceu um estilo cinematográfico próprio em que constrói universos realistas com personagens complexos que frequentemente se deparam com dilemas morais que desembocam em situações-limite testando a índole deles. Avesso a resoluções rasas e maniqueístas, os filmes de Farhadi trazem consigo questionamentos que atingem frontalmente o espectador, pois este inevitavelmente se identificará com os dramas pessoais encarados pelos personagens. E é justamente por ir de encontro ao que costumeiramente se propõe, que seu novo filme, O Apartamento, se torna uma experiência um tanto frustrante.

A trama se desenvolve em torno do professor e ator Emad (Shahab Hosseini) e de sua esposa, a atriz Rana (Taraneh Alidoosti). O casal sofre com a ameaça de demolição do prédio onde moram sendo obrigados a sair depressa e se mudar para um novo apartamento oferecido por um amigo. Porém, esse apartamento era, anteriormente, habitado por uma prostituta, sendo que um de seus clientes entra no imóvel e agride Rana, levando Emad a uma busca incessante por vingança. Em meio a tudo isso, o casal contracena em uma montagem da peça teatral A Morte do Caixeiro-Viajante.

Uma marca registrada de Farhadi é nos apresentar a um Irã que aparenta ser ocidentalizado e moderadamente liberal para, através do cotidiano dos seus personagens, expor a sociedade patriarcal e machista que ainda impera naquele país. É o que podemos ver logo no início do filme quando vemos, no ensaio da peça teatral, um integrante masculino debochar da companheira de cena apenas por esta interpretar uma prostituta.

Esse pequeno momento se torna simbolicamente importante para que compreendamos o que está em jogo para Rana, que, após sofrer as agressões por um estranho que adentra a sua casa, prefere permanecer silente diante dos amigos, pois sabe que será julgada socialmente pela “desonra” sofrida, algo que é ressaltado pela atuação sensível e temerosa de Alidoosti.

Aliás, é interessante como a peça teatral é utilizada estruturalmente por Farhadi não apenas para fazer comentários à censura estatal existente no Irã, mas também para desenvolver seus personagens através da trama da peça de Arthur Miller.

O Apartamento, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Passando a maior parte do tempo fílmico à procura da identidade do sujeito que agrediu sua esposa, o pacato professor Emad vai se transformando em um obsessivo vingador, algo que é cuidadosamente retratado pelos seus figurinos, que inicialmente são predominantemente preenchidos por cores vivas, como vermelho e verde, para aos poucos se tornarem mais sóbrios até chegarem ao preto definitivo. A transformação de Emad é demonstrada de forma paulatina pela competente atuação de Shahab Hosseini, que indica sua instabilidade, por exemplo, através da relação com seus alunos, antes espontânea e divertida e, posteriormente, ameaçadora e intransigente.

O trabalho de fotografia também é eficaz ao emergir os protagonistas em meias-sombras demonstrando a fragilidade de sua relação após o incidente com Rana, algo também indicado pelas rachaduras espalhadas no velho apartamento. A montagem também se destaca pela fluidez com que pavimenta a narrativa durante os dois primeiros atos da trama.

Ocorre que Farhadi acaba por demonstrar certa inabilidade em tecer o suspense que ambiciona. Se durante grande parte da projeção somos levados a uma caçada para revelar o agressor de Rana, a descoberta da identidade do indivíduo no inicio do longo terceiro ato do filme tem um resultado absolutamente anticlimático. Depois de toda a investigação realizada por Emad, descobrimos o agressor de Rana quase que através de um acaso do destino, o que denota certa fragilidade do roteiro (também escrito por Farhadi). Além disso, em nenhum momento parece crível que o agressor teria realmente capacidade (inclusive, física) para desferir as agressões a Rana.

Mas isso nem seria um problema tão grande se Farhadi não abraçasse o maniqueísmo no ato final da trama. Ao, praticamente, nos obrigar a tomar partido por um dos personagens, o diretor iraniano opta por uma resolução rasa e fácil, pesando a mão no melodrama, algo inédito em seus filmes, que, costumeiramente com finais moralmente ambíguos, deixam ao filtro do público a reflexão sobre o desfecho de seus personagens.

Ainda assim, O Apartamento é capaz de nos mostrar um Farhadi cheio de vitalidade, que, apesar de fraquejar ao investir em um suspense que não se sustenta por muito tempo, se fortalece ao voltar-se para o drama pessoal de seus complexos personagens. E se esse filme chega a ser frustrante em determinado momento, é porque estamos acostumados a ver o iraniano elevando sua arte a um patamar de excelência.

E a genialidade de Farhadi, Donald Trump não pode impedi-la de adentrar qualquer lugar que seja.

 

 

Os indicados ao Oscar e um pouco mais

26/01/2017 - Atualizado em: 26/01/2017, 10:49 Publicado por: Rhuan Piauilino
Indicados ao Oscar 2017

Indicados ao Oscar 2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na última terça-feira (24), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados à 89ª edição do Oscar.

É importante destacar que Oscar é, acima de tudo, uma campanha eleitoral. Os grandes estúdios investem rios de dinheiro em publicidades, divulgações e exibições especiais para colocar em evidência os filmes, diretores e atores que eles querem que disputem a estatueta. Dessa forma, quando falamos em Oscar, infelizmente, o que menos importa é o mérito artístico. Então, não adianta ficar chorando por aquele ator genial ou aquele filme maravilhoso que ficou de fora. Se não está dentro, é porque certamente não tinha um grande estúdio por trás bancando a campanha.

Dito isso, aqui vão alguns comentários sobre as indicações deste ano:

La La Land – Cantando Estações obteve o gritante número de 14 indicações igualando o recorde de A Malvada e Titanic. Apesar dessa saraivada de indicações e de ainda ser favorito, o musical parece estar perdendo fôlego na corrida com Manchester à beira-mar e, principalmente, Moonlight- Sob a Luz do Luar que está entrando forte na briga e podem surpreender nas “guilds” (premiações dos sindicatos), que são os verdadeiros termômetros para o Oscar. Ainda assim, La La Land é um filme forjado para ganhar Oscar, e dificilmente será surpreendido nesse aspecto.

– Casey Affleck (Manchester à beira-mar), Natalie Portman (Jackie), Viola Davis (Fences) e Mahershala Ali (Moonlight-Sob a Luz do Luar) são os virtualmente favoritos em suas respectivas categorias de atuação. Claro que em um mês muita coisa pode mudar (há quem diga que Emma Stone pode desbancar o favoritismo de Portman). Mas a tendência é que estes levem a estatueta para casa.

– Não há dúvidas de que Amy Adams é a grande ausência entre os indicados. Animais Noturnos e A Chegada são dois dos melhores filmes de 2016, e ambos são dominados por interpretações viscerais da atriz. Mesmo que Natalie Portman pareça dominar a categoria de Melhor Atriz, a sexta indicação de Adams era para ser uma barbada. Não foi.

– Se Amy Adams foi esnobada, Meryl Streep recebeu sua vigésima indicação por sua atuação mediana em Florence-Quem é essa mulher?. A impressão que dá é que a Academia está indicando Meryl Streep simplesmente por ser Meryl Streep. Além disso, parece claro que o discurso inflamado que a veterana fez na cerimônia do Globo de Ouro impulsionou sua candidatura.

– A categoria de Melhor Ator Coadjuvante parece já ter um dono: Mahershala Ali. Contudo, gostei de ver a indicação de Michael Shannon por sua atuação em Animais Noturnos, ao invés do canastrão Aaron Taylor-Johnson (que venceu o Globo de Ouro). A indicação de Shannon coroa o seu ótimo 2016, em que protagonizou filmes como 99 Casas e Destino Especial.

– Isabelle Huppert, que provavelmente é a melhor atriz em atividade, recebeu sua primeira indicação ao Oscar. Isso chega a ser assustador quando vemos o currículo da atriz francesa, que já trabalhou com Godard, Chabrol, Haneke, Wajda e vários outros monstros sagrados do cinema. Aliás, por sua atuação em Elle, Huppert vem ganhando suas primeiras indicações em prêmios fora da Europa. Apesar de não ser favorita, vai ser bacana torcer por ela no dia da cerimônia.

– Este ano a Academia fugiu da polêmica do #Oscarsowhite indicando um diretor (Barry Jenkins) e seis atores (Denzel Washington, Ruth Negga, Mahershala Ali, Viola Davis, Octavia Spencer e Naomie Haris) negros. Além disso, filmes que abordam temáticas raciais como Moonligh-Sob a Luz do Luar, Estrelas Além do tempo e Fences figuram na categoria de Melhor Filme.

– Após as indicações no WGA (Sindicato dos Roteiristas) e no DGA (Sindicato dos Diretores), muitos fãs sonhavam com a improvável indicação de Deadpool ao Oscar. Além de ela não acontecer, ainda tiveram de ver o pavoroso Esquadrão Suicida ser indicado na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo. Sim, Esquadrão Suicida é um Oscar Nominee. Durmam com esse barulho.

– A Amazon é a primeira plataforma streaming a receber uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme. A empresa comprou os direitos de Manchester à beira-mar logo após o filme ser lançado no Festival de Sundance 2016. Chupa, Netflix! (brincadeirinha, Netflix, nós te adoramos).

– Mel Gibson parece ter sido definitivamente perdoado por Hollywood ao ser indicado na categoria de Melhor Diretor por Até o Último Homem. Tudo bem que o sujeito é um antissemita perturbado, mas é inegavelmente um baita cineasta.

– O lendário compositor Thomas Newman ganhou sua 14ª indicação pela trilha sonora de Passageiros. Provavelmente, também será sua 14ª derrota. Nada que se compare a Kevin O´Connell, que recebeu sua 21ª indicação (pela mixagem de som de Até o Último Homem), mas nunca venceu. Quem sabe dessa vez?!

 

Por enquanto é só isso. Aguardemos os prêmios dos sindicatos, que irão indicar os prováveis vencedores do Oscar 2017. Aí é só esperar o dia 26 de fevereiro e correr pro abraço!

Um brinde àqueles que sonham

17/01/2017 - Atualizado em: 17/01/2017, 23:55 Publicado por: Rhuan Piauilino

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A Era de Ouro de Hollywood atingiu seu apogeu na década de 1950. Os voluptuosos Musicais eram o carro-chefe dos grandes estúdios de cinema em Los Angeles, que se tornaram uma verdadeira “fábrica de sonhos”, em que a magia provocada pelo Cinema não tinha vergonha alguma de assumir o seu escapismo. Mais de seis décadas depois, esse gênero considerado por muitos desgastado e ultrapassado recebe uma leitura tão doce e mágica quanto a dos clássicos dos anos 50. E o responsável por isso é La La Land – Cantando Estações.

A trama do filme se desenrola através de dois personagens: Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). Ela é uma atriz iniciante que sonha com um grande papel, mas esbarra em inúmeros testes sem êxito. Ele é um pianista de jazz que tenta manter viva a pureza da sua arte, mas se vê obrigado a tocar músicas natalinas em restaurantes para sobreviver. Quando os dois se encontram, tentam ajudar-se mutuamente a alcançar seus sonhos e desejos.

La La Land não esconde sua proposta de ser uma grande homenagem aos musicais clássicos ao trazer logo em seus créditos iniciais a apresentação em CinemaScope (tecnologia que revolucionou o cinema no inicio da década de 1950). A sequência de abertura realizada em um engarrafamento sob o ensolarado céu de Los Angeles evoca não apenas a beleza da cidade, mas nos indica o tom alegre, pulsante e nostálgico que permeará a obra, com cores e sons se misturando intensamente em uma coreografia ousada. Aliás, ousada também é a opção do diretor Damien Chazelle ao rodar a cena em um plano-sequência em que a câmera se movimenta freneticamente em espaços curtos, mas sempre enquadrando todo o balé que compõe a bela introdução.

A partir daí, os dois protagonistas passam a preencher a narrativa com seus dilemas e objetivos. Mia, por exemplo, é uma moça alegre, espontânea, cheia de vida, porém um tanto exausta por não conseguir as oportunidades de atuar com que tanto sonha. Já Sebastian luta para defender o purismo do jazz, o estilo musical que tanto ama, mas frustra-se por não conseguir ao menos expressar esse amor tocando o que mais gosta.

A personalidade de ambos é ilustrada de forma competente pelo design de produção de David Wasco ao trazer a sonhadora Mia vivendo em um apartamento agitado (que divide com mais três amigas), cheio de cores, e com um pôster de Ingrid Bergman colado na parede de seu quarto, ao passo que o apartamento do desiludido Sebastian é uma verdadeira bagunça, repleto de caixas vazias e outras por arrumar. O trabalho de Wasco se torna ainda mais marcante ao utilizar cores fortes em quase todas as locações construindo uma atmosfera de sonho e magia, mas equilibrando-a com elementos que trazem a trama para a realidade como carros e celulares modernos.

O design de Wasco é complementado de forma brilhante pelos figurinos da experiente Mary Zophres. Reparem como Mia é apresentada inicialmente com roupas com um tom azul tristonho para, ao longo do filme (e das estações), alternar com as demais cores primárias que indicam seu estado emocional. Ou mesmo o tom sóbrio e escuro dos figurinos dos protagonistas quando estes parecem não estar mais na mesma “sintonia”.

LaLaLandDestaqueA fotografia em neon (por vezes, exagerada) de Linus Sandgren consegue construir belas imagens mergulhando o casal principal em contraluzes que engrandecem a poesia da relação entre eles, ao passo que a montagem dinâmica de Tom Cross se faz presente de forma eficiente, especialmente nas elipses do segundo ato.

Tais elipses, inclusive, explanam alguns problemas no roteiro escrito por Chazelle, pois, ao final do segundo ato, este parece apressar-se para mudar os rumos dos personagens sem maiores desenvolvimentos, abusando de soluções rasas e esquemáticas. Mas, ao mesmo tempo que demonstra certo anacronismo, esse mesmo roteiro traz nas sutilezas dos seus diálogos uma autocrítica refinada (“Quando terá a chance de ver os mesmos clichês de Hollywood na mesma sala?”), além de fazer comentários sobre a relação entre atores e grandes estúdios em Hollywood (“Nessa cidade é assim que funciona. Uma do seu gosto e uma do meu!”).

Falando em Chazelle, é inegável a eficiência de sua direção em La La Land. Se no excelente Whiplash-Em Busca da Perfeição o jovem diretor se arriscava numa trama inquietante e visceral, aqui ele parece querer nos conduzir por águas calmas em um universo mágico e de sonhos. Aliás, se há uma palavra que defina esse filme, essa seria “sonhos”, e o diretor traduz essa ideia ao construir uma atmosfera nostálgica que nos transporta aos musicais clássicos com Fred Astaire e Ginger Rogers, referenciando obras-primas como Cantando na Chuva e Os Guardas-Chuvas do Amor. É interessante notar, por exemplo, como Chazelle faz uso de flairs com tonalidade azul conforme Sebastian passa a conviver com Mia, o que ressalta o ambiente onírico e representa visualmente a relação crescente entre os protagonistas. O cineasta demonstra intensa segurança nos enquadramentos dos números musicais, construindo transições eficazes que nos fazem mergulhar naquele universo. E se na segunda metade o filme parece perder fôlego, ficando um tanto inchado e desritmado, Chazelle recupera-se com um intrigante terceiro ato.

E é claro que não poderia esquecer as ótimas atuações centrais. Ryan Gosling é hábil ao demonstrar o talento de
Sebastian, que deságua em uma frustração iminente por ver sua arte esvair-se em pequenos bares. E reparem como o ator compõe uma postura encurvada e cabisbaixa, que se transforma em uma postura altiva e decidida após conhecer Mia. Emma Stone, por sua vez, mistura sua persona desajeitada à de Mia, sendo competente ao demonstrar sutilmente a tristeza de sua personagem ao ser reprovada em vários testes. Pertencem a ela, inclusive, os melhores momentos dramáticos do filme permitindo que a atriz demonstre todo o seu talento. Mas a verdade é que o filme cresce quando Gosling e Stone estão juntos. A química entre eles exala na tela desde o primeiro instante em que os dois compartilham o quadro. Até mesmo nos números musicais pobres concebidos por Mandy Moore (com exceção da abertura), é a interação entre os dois atores que sustenta a cena.

No fim das contas, La La Land toca facilmente nossos corações, não apenas por ser doce e agradável, nem mesmo por ser uma grande homenagem ao cinema clássico, mas, essencialmente, por ser uma grande ode aos sonhadores. Àqueles que querem ser pianistas de jazz, que querem ser atrizes, ou mesmo àqueles que querem apenas sair cantando em meio a um engarrafamento, ou subir às estrelas e dançar como se não houvesse amanhã, ou simplesmente beijar a pessoa amada sob um luar de neon. E mesmo que percamos pessoas e sentimentos pelo caminho, viver o sonho será sempre a melhor opção.

Como diz uma das músicas do filme: “Um brinde àqueles que sonham”

Os melhores filmes de 2016

30/12/2016 - Atualizado em: 30/12/2016, 19:21 Publicado por: Rhuan Piauilino

Os tortuosos 366 dias de 2016 ainda irão perdurar em nossas memórias por muito tempo. Um ano tão marcante (para o bem e para o mal), não poderia deixar de trazer grandes obras de arte, especialmente no audiovisual. Coisas geniais como O.J. – Made in America (minissérie transformada em longa-metragem após a exibição), The Night Of e a primeira temporada de Westworld, acalentaram as perdas irremediáveis deste ano. Mas, aqui, me restringirei ao Cinema. Então aí vai minha lista daqueles filmes que mais me impressionaram esse ano, destacando que utilizei como critério, apenas filmes lançados comercialmente no Brasil em 2016 (seja em Cinemas, TVs, ou Sistemas de Streaming Online).

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1º – OS OITO ODIADOS

Um filme que demonstra toda a ambição narrativa do genial Quentin Tarantino, ao transformar uma reunião aparentemente casual de pessoas de índole duvidosa em um microcosmos da sociedade norte-americana. Cada personagem representa uma característica ou um agente formador daquilo que chamamos de Estados Unidos da América. E é curioso notar o quanto todos eles são criaturas desprezíveis e capazes de destruir-se mutuamente com muita facilidade. Os diálogos tarantinescos estão mais afiados do que nunca e nos conduzem a um final digno de aplausos. Porque há muito mais em Tarantino do que sangue jorrando na tela.

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2º- O ABRAÇO DA SERPENTE

Esse excelente exemplar colombiano é um verdadeiro tratado sobre as relações entre o homem branco e os indígenas em meio à exploração da borracha na floresta Amazônica no início do século XX. Um filme sobre crenças e descobertas que ressalta a espiritualidade e os labirintos tortuosos (e devastadores) da sobreposição cultural à qual foram submetidos os povos silvícolas que ali habitavam. Sob a égide de uma soberba fotografia em preto e branco, o diretor Ciro Guerra tece uma narrativa que desafia a memória de seu protagonista e do próprio espectador.

 

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3º- AQUARIUS

Kléber Mendonça Filho concebe uma obra de cinema que é puro afeto. Contendo o nome de um prédio como título, esse filme discute a priori a fisicalidade dos sentimentos através de um objeto, de um carro ou mesmo de sua própria casa. A partir disso, Aquarius nos preenche com uma brasilidade indiscutível que começa na bela trilha sonora e termina na espetacular atuação de Sônia Braga. Um filme sobre nós (brasileiros), nossas relações, nossas “verdades”, de como sobrevivemos apesar delas.

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4º- BOI NEON

Uma mulher caminhoneira, um vaqueiro que desenha roupas femininas, uma garotinha apaixonada por cavalos. É através desses personagens que fogem dos estereótipos mais comuns que Gabriel Mascaro nos conduz pela sua narrativa contemplativa recheada de simbolismos sobre a tentativa de “fuga” daqueles homens e mulheres de um universo que não satisfaz seus sonhos e desejos. Uma tentativa (por vezes, inútil) de brilhar no escuro como a tinta neon em um boi de vaquejada.

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5º- ANOMALISA

O gênio de Charlie Kaufman se prova novamente nessa delicada e sensível animação que explora, através do solitário protagonista Michael Stone (David Thewlis), a eterna busca humana por conexões com outras pessoas e por evitar que o cotidiano das relações se torne uma contínua decepção. E é óbvio que Kaufman deixa sua assinatura onírica, o que torna a obra ainda mais angustiante.

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6º – A CHEGADA

Sem dúvida, a grande ficção científica do ano. Utiliza a ideia de uma invasão alienígena para discutir a importância da linguagem como vetor de descobertas pessoais, além de refletir sobre o que nos define como seres humanos. Repleto de sentimento e melancolia, o filme ainda nos faz olhar para o tempo como algo que parte muito mais de nós mesmos do que da própria natureza.  Em 2014 coloquei O Homem Duplicado entre os dez melhores filmes do ano. Em 2015, coloquei Sicario. Com A Chegada é a terceira vez seguida que Villeneuve está no meu top 10 pessoal. Acho que estou virando um villeneuvete.

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7º – PAULINA

Um daqueles espécimes cinematográficos que testam a moral do espectador durante toda a projeção. Esse excelente filme argentino levanta discussões importantíssimas a partir de um evento aterrador: o estupro da personagem-título. Com uma atuação forte e difícil de Dolores Fonzi, Paulina traz a visão da mulher depois de ser violentada e como suas decisões após o crime se tornam incompreensíveis para aqueles que o cercam, principalmente quando a compaixão se torna uma opção.

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8º – O VALOR DE UM HOMEM

Um retrato intimista das consequências práticas da crise econômica na Europa. Ao contrário de outros cineastas, o francês Stéphane Brizé aposta na simplicidade e no minimalismo para desenvolver um personagem central que tenta manter sua dignidade em meio à sangria de empregos na França. Vincent Lindon evoca uma nobreza irretocável em uma atuação detalhista, cuja grandiosidade reside nas sutilezas.

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9º- CERTO AGORA ERRADO ANTES

Seria um pecado deixar o cinema asiático de fora de uma lista de melhores filmes do ano. Especialmente, quando um cineasta tão marcante quanto Hong Sang-soo concebe um exercício de linguagem tão fascinante como este. Como o próprio título já aponta, Sang-soo explora a possibilidade de modificarmos uma atitude errada que tomamos anteriormente. Um exercício que em nosso cotidiano é comum, mas que nas mãos do cineasta sul-coreano se transforma em uma reflexão sobre o arrependimento e uma metáfora sobre o “fazer cinema”.

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10º- 13ª EMENDA

Esse documentário original da Netflix, dirigido por Ava Duvernay, discute o grave problema do encarceramento em massa nos EUA, sob a ótica da discriminação racial. Para tal, Duvernay explana um painel histórico/social sobre a imagem inferiorizada do “homem afro-americano” propagada por filmes, jornais, revistas e receptada pelo Estado através de seus governantes. Sem abrir concessões (nem para republicanos, nem para democratas), o filme demonstra que existe uma verdadeira “emenda invisível” na Constituição Americana que legitima a matança e o aprisionamento de negros nos EUA. Uma ferida que permanece exposta nesse país.

 

MENÇÕES HONROSAS

 

417560-jpg-c_400_200_x-f_jpg-q_x-xxyxxO NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

Através da reconstituição de uma rebelião de escravos ocorrida em meados do séc. XIX, o diretor Nate Parker revela com violência a insanidade dos fundamentos da escravidão nos EUA (ou em qualquer outro lugar).

 

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ELLE

Paul Verhoeven está de volta, e, em parceria com a genial Isabelle Huppert, constrói um thriller imoral cheio de nuances psicológicas.

 

 

 

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CAPITÃO FANTÁSTICO

Um encanto de filme, recheado de personagens exóticos e divertidos. Viggo Mortensen está excelente.

 

 

 

 

 

 

 

A fé no feminino

26/12/2016 - Atualizado em: 26/12/2016, 18:59 Publicado por: Rhuan Piauilino

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Logo no início do documentário Marias, vemos uma série de pequenas estátuas pálidas da Virgem Maria que vão ganhando cores e contornos conforme o escultor as manuseia. Tal cena se mostra uma pequena metáfora que sintetiza os 76 minutos de projeção, em que aqueles que entram em contato profundo com a figura de Maria ganham um novo sentido de vida.

Dirigido por Joana Mariani, Marias tem como escopo uma investigação sobre tudo que envolve a devoção à Virgem Maria em diversos países da América Latina, como Brasil, Peru, Nicarágua, Cuba e México. Para isso, a cineasta realizou uma pesquisa que durou 06 anos captando imagens de santuários e grandes peregrinações e manifestações de culto à representação de Nossa Senhora. Além disso, trouxe consigo relatos de pessoas com nome de Maria que tiveram, ao seu modo, uma forte experiência de fé com a mãe de Jesus.

O filme inicia com um tom contemplativo ao evocar imagens que ressaltam a santidade de Maria, especialmente na peregrinação ao santuário de Aparecida, em São Paulo. A fotografia de Anderson Capuano compõe belas imagens que traduzem o sacro que envolve o culto a Maria, como aquela em que contrasta o ardente fogo das velas acesas em uma Igreja com a luz do Sol adentrando o espaço através de pequenos buracos nas janelas.

Todavia, aos poucos, o longa vai adotando uma abordagem mais antropológica sobre a fé das mulheres em Maria, desvencilhando-se do conceito meramente religioso. Ao trazer o relato da restauradora responsável por reconstruir a imagem de Nossa Senhora Aparecida que estava em “cacos” após um incidente, percebe-se que o confronto entre fé e razão dará lugar a uma análise mais meticulosa sobre a figura feminina existente em Nossa Senhora.

hqdefaultA partir daí, a diretora evita os sentimentalismos baratos e lança um olhar sobre as diversas facetas que representam a Virgem Maria (mãe, mulher, esposa, matriarca, etc.), e o quanto cada característica é representativa para as mulheres de cada região. É curioso notar, por exemplo, como as mulheres mexicanas fazem questão de apontar que sua padroeira, Nossa Senhora de Guadalupe, é uma santa gestante pronta para dar à luz, o que simboliza os milagres que estariam por vir através de seu ventre.

O longa vai além ao demonstrar que a crença em Maria se tornou um símbolo que une as culturas da América Latina e que, em meio aos seus sincretismos e nacionalidades, encontra um elemento de identidade unificador de povos tão miscigenados, algo que a montagem faz questão de destacar ao saltar de forma fluida entre as manifestações religiosas de cada país. Tal crença transcende os limites religiosos, o que se constata quando é mencionado que até aqueles que não acreditam em Deus cultuam a figura de Nossa Senhora da Caridade do Cobre, em Cuba.

Mas talvez o relato mais condizente com a obra seja o do músico cubano José Maria, que, convicto de seu ateísmo, teve uma experiência de fé com Nossa Senhora e transformou-a em arte ao compor um hino em homenagem à Virgem Maria, algo que não existia em seu país até então.

Essa representação de Nossa Senhora em forma de arte parece ser justamente a proposta da diretora Joana Mariani, que homenageia a cultuada Virgem Maria com um trabalho sobre o feminino existente por trás da figura santa e todos os valores de maternidade, acolhimento, consolo, cura e força associados a ela.

Valores estes que se refletem nas mulheres que lutam a cada dia para ter mais espaço e voz em uma sociedade machista que subjuga a força do feminino. E, por mais diferentes que sejam as formas com que se busca esse reconhecimento, de uma forma ou de outra, a imagem de Maria se torna a fonte inesgotável de inspiração e justiça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A maturidade em Star Wars

18/12/2016 - Atualizado em: 19/12/2016, 09:05 Publicado por: Rhuan Piauilino
Rogue One - Uma História Star Wars traz maturidade à Saga

Rogue One – Uma História Star Wars traz maturidade à Saga

No ano passado, tivemos o retorno de uma das maiores franquias da história do Cinema. O Despertar da Força reacendeu, no coração daquele fã incansável da saga Star Wars, o fervor de saborear o seu universo preferido na tela grande, e de quebra fez acender, naqueles que nunca foram muito “chegados” na série, a vontade de também beber um pouco dessa magia que atravessa galáxias.

O Despertar da Força marca o retorno de Star Wars ao cinema.

O Despertar da Força marca o retorno de Star Wars ao cinema.

J.J.Abrams foi o responsável por trazer Star Wars de volta, sendo uma escolha natural, já que o diretor havia sido o responsável pelo retorno da franquia Star Trek, com muito sucesso, diga-se de passagem. E a verdade é que Abrams foi muito esperto ao conceber O Despertar da Força da forma como o fez.

Se pensarmos bem, ele arriscou muito pouco. Trouxe de volta os principais personagens clássicos com os atores originais, utilizou a mesma estrutura narrativa do ótimo episódio IV, fez um caminhão de referências ao universo expandido da série e agradou quase todo mundo (e digo “quase”, porque sempre tem o fanzoide chatão que morre se o filme não for pura fan service).

E não acho que isso foi demérito do diretor. Ao contrário, a função dele era reativar a franquia clássica e dar a ela um frescor jovial e moderno, e o fez com muita competência, inclusive na inserção dos novos personagens. Rey, Finn, Poe, e BB-8 caíram nas graças do público, e até mesmo o controverso Kylo Ren foi motivo de debates intensos, principalmente devido a sua natureza.

De certo é que a tragédia da família Skywalker sempre nos atrai e continuará atraindo. Mas o universo Star Wars é gigantesco e pouco explorado no cinema. É nesse ponto que o novo filme da série, Rogue One – Uma História Star Wars, se torna um pequeno deleite.

Estreando nas salas de cinema de todo o país, o longa traz algo novo em Star Wars. A história situa-se cronologicamente entre os acontecimentos do Episódio III – A Vingança dos Sith e do Episódio IV – Uma Nova Esperança, e centra-se na protagonista Jyn (Felicity Jones), uma jovem que reluta em optar por um dos lados da guerra “Império X Aliança Rebelde”, mas é cooptada por esta última para ajudar em uma missão que envolve seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen, sempre competente), que estaria sendo forçado a construir uma arma de destruição em massa para as forças imperiais.

Galen teria enviado uma mensagem para o guerrilheiro Saw Guerrera (Forest Whitaker) através do piloto desertor Bhodi Hook (Riz Ahmed), sobre a construção dessa grande arma, e Jyn seria a forma pela qual a Aliança teria acesso à mensagem. Juntamente com o militar rebelde Cassian (Diego Luna), os guerreiros Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Wen Jiang), e o droide reprogamado K-2SO (Alan Tudyk), Jyn seguirá em busca dessa mensagem, mesmo que resista, inicialmente.

Assim como em O Despertar da Força, Rogue One possui uma mulher como protagonista. Mas Rey e Jyn possuem diferenças fundamentais para a construção narrativa de ambos os filmes. Enquanto a primeira sonha em viver as lendas das guerras e dos Jedis que tanto ouvira desde criança, a segunda reluta em corresponder a essa realidade e assumir qualquer luta por qualquer que seja a causa. Para Jyn, especialmente, isso não só funciona para o desenvolvimento do seu arco dramático, mas também é um comentário de como a sua omissão (e a de vários outros) permite que o Império imponha com mais facilidade sua dominação em busca de “paz e segurança” para a galáxia.

Nesse sentido, Rogue One demonstra ser o filme mais maduro da Saga Star Wars no Cinema, pois através de sutilezas demonstra não só o quanto o Império era repressivo e destrutivo para a galáxia (destruindo planetas inteiros com um simples apertar de um botão), mas também ressalta o quanto o extremismo da Rebelião fez com que esta adotasse métodos que a tornaram mais semelhante a seus inimigos do que ela gostaria. E isso pode ser constatado na figura paranoica do guerrilheiro Saw Gerrera, que usa um aparelho para respiração que nos lembra Darth Vader, o maior algoz dos rebeldes. Uma semelhança sutil, mas repleta de simbolismo.maxresdefault

A fita também demonstra ousadia ao trazer constantemente, através de seus personagens, o confronto entre o pragmatismo da guerra e o misticismo da Força. Naquele universo sombrio de uma batalha desigual (a fotografia escura de Greig Fraser pontua isso de forma certeira), o conceito da Força parece ser algo mais distante e a incredulidade dos rebeldes soa mais natural do que deveria. Até por isso, a figura do monge Chirrut, que pensa a Força como um mantra, traz, ao mesmo tempo, a contraposição e o equilíbrio necessários em meio à dureza daquela guerra.

O diretor Gareth Edwards mostra uma competência surpreendente (ele havia dirigido a problemática nova versão de Godzilla), principalmente nas cenas de ação, criando batalhas campais épicas diferenciando visualmente os oponentes, e fazendo um bom uso dos efeitos digitais, especialmente na (re)construção de personagens que fisicamente não poderiam mais estar ali.

Em suma, Rogue One – Uma História Star Wars consegue a proeza de, mesmo possuindo todo o estilo de um filme da Saga, diferenciar-se por explorar a racionalidade da guerra entre Império e Aliança Rebelde, fazendo comentários políticos relevantes sem jamais deixar de satisfazer os fãs com referências de todo o universo Star Wars ou mesmo entreter com belas cenas de ação.

Porque Star Wars não gira apenas em torno da família Skywalker, e os todos os heróis desse universo merecem mais do que uma simples nota de rodapé.

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